quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

O que eu ainda não sabia e fiquei sabendo este ano sobre o Vale

Este foi o ano em que o Censo deu nome aos numeros do Vale do Taquari. Em todos os cantos da região, as estatísticas sinalizaram que melhoramos, mas que precisamos melhorar ainda mais.

***No Santo Antônio, bairro pobre de Lajeado, tem uma mulher que não se entrega para o destino. Terezinha luta pra colocar comiga na mesa para o filho dos outros.“Prefiro ver a criança levantar de barriga cheia da mesa. Eu me sinto feliz.”

 *** Ainda no Santo Antônio tem o clube de uma loira só que é prostituída, mas foi estuprada aos 11 anos. Era ciclista, mas já não pedala mais. Engordou a olhos vistos. Mas sua história comove. Hoje, diz ter síndrome do panico, mas se vira nos 30 para sobreviver.


*** Descobri que Itapuca é a cidade dos sem-banheiros: das 716 casas do município, 46 sequer tem banheiro, o que representa 6,4%. É um dos índices mais elevados do Estado. A gente de Itapuca tem o costume tão arraigado que dispensa o banheiro em favor da “latrina”. “Muita gente não quer o banheiro, continua utilizando a patente.”

*** Descobri que enquanto alguns municípios vivem a era do tablet, em Taquari, cidade que possui uma das maiores cooperativas de luz, 39 casas não possuem energia elétrica. É o maior número de barracos sem luz na região, representando 0,42%.


*** Descobri que em Sério está a terceira pior renda per capita. A população cultiva hortas para não gastar em supermercado, que no lugarejo é raro.

** Que em Travesseiro,  mais de 90% das pessoas tem a casa quitada. O repouso dos habitantes de Travesseiro é tranquilo porque ali quase todos tem casa própria. 


*** Estrela é a cidade da faxina. Imprime rigor na limpeza e coleta 98,76% do lixo segundo o Censo. A área rural também é contemplada

 *** Descobri que tem uam familia de colombianos refugiada em Lajeado. Eles fugiram do trafico no país deles. Estão sob a tutela das Organizações das  Nações Unidas e da Associação Antônio Vieira, braço da ONU no Rio Grande do Sul.  Um cadeirante colombiano fica trancado no aparamento e sem acessibilidad, aprende português pela televisão

*** No Vale do Taquari, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que 53 casais gays foram contados pelo Censo. Das 38 cidades da região em 12 foram identificadas uniões estáveis homoafetivas. Em Lajeado, 29 casais.  Roca Sales surpreende: há quatro uniões estáveis declaradas no município de 10.250 habitantes.

***Nova Brescia  tem os homens mais ricos do vale. Eles ganham 2.298, enquanto a mulher 979. 

*** Descobri que Fazenda Vilanova tem o maior percentual de negros da região. Mas ainda assim é pouco: alemães e italianos dominam no Vale.

***Canudosdo Vale  abriga as mulheres mais ricas, que ganham 44% a mais do que a media geral.  Ou 1288.

** No Vale, de cada quatro casamentos, um fracassa: enquanto 1.125 pessoas casaram,  381 separaram.

*** Em Lajeado,  houve mais divórcios do que separações: 125 contra 56.  Mas um desamor não pode ser fatal.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O Natal existe para aliviar nossa consciência

*** Eu fiz esse texto de um so fôlego. Sem corrigi-lo, sem mudar sequer uma palavra. Porque queria que ele saísse tal qual eu penso, como se fosse uma fotografia do pensamento, com todos os erros e defeitos a que tenho direito pensar. Nenhuma vírgula será mexida, quis captar o meu sentimento do momento, sem polir com palavras bonitas, sem botar panos quentes. E deu nisso...



Eu não sei o que pensar do Natal. Acho-o cruel porque as crianças pobres ficam com a maior vontade de ter um presente que não seja doado ou algo que seja novo mas que custe mais do que R$ 15 reais.Sim, porque quando a gente se dispõe a ser generoso, duvido muito que alguém se habilita a dar presente maior a 15, 20 ou R$ 50. É muito, a gente acha que pobre nem merece tanto. E quando porventura contribuímos com esse alto mimo, nos sentimos super bons, bacanas e evoluídos. Ou seja, os R$ 50 que gastamos com o queridinho nos fez melhor a nós do que propriamente a ele. Que Natal é esse então que a gente gasta, engorda e enrola os outros com a falácia da solidariedade?

O Natal é cruel porque traz em si a aura da família estruturada, que acalenta, que se adona da noite em uma mesa espetacularmente decorada com comida em abundância, pai, mãe e parentes sorrindo festejando a confraternização. Que bestialidade para quem tem pai alcoólatra, mãe com câncer e irmão deficiente. E nós, como já compramos a merreca do presentinho para o afilhado pobrezinho, nos isentamos da culpa da terrível noite alheia. Porque agora não é mais conosco. Já fizemos nossa parte adotando uma criança dos Correios e dando o que ela pediu na cartinha que no fundo, não roga apenas por um brinquedo singelo. Ela quer atenção, quer futuro. Ela quer acabar com os Natais, porque as datas evidenciam a desestrutura familiar dela e a colocam em cheque com outras famílias, nas quais se propagandeia o acalento. Mal sabe a criança, tadinha, que todas as famílias são tristes. Que o Natal é apenas uma propaganda de refrigerante. Que essa balela de celebração é tão inexistente quanto o velhinho.

Por favor, não estou sendo mordaz e nem árida. Eu simplesmente não dou bola para o Natal. Uma vez, eu ficava triste. Agora perdi a capacidade de me entristecer. Sou indiferente à época. Só me serve para sinalizar que o décimo-terceiro vem aí. E então fico satisfeita por ter um salário extra na conta que some em três dias porque tenho de comprar presente em nome do Natal.

Eu não me espiritualizo em dezembro. Não faço balanço mental do que fiz de bom ou de ruim como fazem os secretários de Lajeado avaliando o ano de suas pastas. Minha vida não é uma pasta e eu também não me iludo com a idéia de que vou mudar.

Eu choro. Mas choro por coisas simples, que me constrangem porque são lágrimas tão inusitadas que não dá para justificar uma certa sensibilidade.  Eu choro por dentro quando vejo uma criança pobre recebendo um presente da sociedade. Choro de tristeza mesmo. Eu sei que aquele presente não vai resgatá-la de sua vida desgraçada. Eu sei que a boneca, o carrinho, a bola ou o material escolar sem marca não vai redimi-la de uma família desestruturada.

Ela vai receber o presente do Noel. Vai sorrir para ele, a gente vai se aliviar na hora por pensar: está tudo bem, ela ganhou seu presente. Terá um bom Natal. Mentira. Prá começar, o presente foi dado a ela antes do Natal, não na noite natalina, na hora exata em que as famílias se unem para a celebração. A gente antecipa a celebração porque na data mesmo, estaremos com nossos parentes, lépidos e faceiros ou pseudofaceiros achando que fizemos nossa parte. Mintchura.

A boneca presenteada vai dar satisfação durante dois dias. Depois disso, o pai vai continuar alcoolizado, a mãe sem grana e a despensa vazia.  Mas nós fomos as boas pessoinhas natalinas. O Natal só presta pra aliviar nossa consciência suja.

Olha, eu acho que mesmo que seja uma boneca miserenta, a gente tem que dar. Mas mudança mesmo, mitigação da dor e da ruína humana, só com menos presente e mais esforço. Ou nós, presentes de corpo e alma na vida dessa gente. Mas isso a gente não faz. O presente físico é um presente caro demais. Deixemos para os poucos iluminados. Compremos o perdão e a autoindulgência à prestação. No crediário, o mundo prega a bondade. E dá ajuda em conta-gotas.
João Vitor tem 4 anos e ganhou um rancho do Papai Noel dos Correios. Toda familia vai se fartar. Ele retirou ansiosamente a bolacha do pacote e deu uma mordidona, se rindo todo...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Genética não é destino

Na terça-feira 13  ganhei meu presente de fim de ano. Ela me veio em forma de história de vida e tinha tudo para ser um brado lastimoso de um destino inglório.  Mas foi como se a história de seu Decker me injetasse um gás, uma dose extra de endorfina natural ou oral. Um pai, um marido e um representante comercial, ele, o melhor personagem de 2011, eleito por mim, numa história tão contagiante que não pude deixar propagar pela redação inteira. “Que história incrível.”

Seu Decker não tem os dois rins e há um ano e oito meses não faz xixi. Quando me  confrontei com sua história, assoviei  num pio de descrença: o queeeeeeeee, não tem rim? Impossível. Como que os médicos nunca me disseram que uma pessoa poderia viver sem rim?. É crível que as pessoas vivam sem olhos, mas o pior cego é aquele que não quer ver. No caso, eu, uma criatura tapada na frente do seu Decker, com cara abobalhada questionando três vezes: o queeeeeee, o senhor não faz xixi?

Não faz não. Imediatamente me veio aquela sensação incômoda de ter vontade de fazer xixi e não poder. Imaginei-o segurando a urina por dois dias.  48 horas, até encarar a sessão hemodiálise para retirar três litros de água. Seu Decker emagrece três quilos toda vez.  Entra na sessão com 77 quilos e sai com 74.  É o peso seco. Uma vigilância eterna.  Seu Decker tem que cravar nos 74. É o reloginho da boa-saúde.

Ele tem uma doença esdrúxula que nem faço questão decorar.  Me detive no efeito que ela produziu no seu corpo. Seu rim cresceu tanto que chegou a pesar cinco quilos. O outro, quatro. Ao todo, nove quilos de rins.  Situados um de cada lado no segmento da coluna lombar, faziam um peso desgraçado.  Para seu Decker, era como se estivesse grávido de rins. Trigêmeos dissera ele.

Depois que tirou os órgãos reprodutores de urina, desinflou.  E teve de aprender a fazer xixi pelas veias.  A hemodiálise é seu vaso sanitário. Só que ele não pode ir até o banheiro e arriar as calças e fazer pipi. Precisa esperar 48 horas. E precisa esperar também um rim. Um, dois, três anos e o cadáver-solidário não vem. Por três vezes bateu na trave, mas outras pessoas foram escolhidas.

Seu Decker não é filósofo. Mas por um destino congênito aprendeu a compilar a frustração.  Ele extirpou a derrota junto com os rins.  E no lugar colocou doses maciças de treinamento mental. Seu Decker foi acometido por muito mais mazelas do que a maioria das pessoas, todavia, ele tem as feições e o ar mais saudável do que a maioria dos pacientes. A façanha de Decker não é viver sem rins. A façanha de Decker é viver sem agonia.

Quando a gente faz matéria de pessoas que precisam de transplante, aparece alguém em cadeira de rodas ou debilitado, com o rosto triste e olhar de paisagem. Seu Decker não tem olhar de paisagem, seu decker nem depende do governo para sustentar sua família e uma casa bacana em Estrela. Ele não se encostou na previdência social.

Os rins cresceram e ele continuou trabalhado.  Ele vendeu filtro carregando os dois rebentos involuntários dentro da barriga.  Uma gestação muito maior do que nove meses.  E depois ele retirou-os e continuou trabalhando. E em vez de lastimar que teria de passar nove horas por semana na hemodiálise, fez das sessões sua sala de aula. Seu Decker é grávido de entusiasmo, isso cirurgia nenhuma tira dele. Ele fez de seus pensamentos um reino, não uma jaula. Setenta por cento das doenças são curadas pela mente, me diz ele. Seu Decker, que tem nome de ave, é um Aristóteles moderno.  Enquanto muitas pessoas entendem que a felicidade é algo aleatório que nos é dado por circunstancias externas, os pensadores gregos relacionavam a atitudes corretas: felicidade depende de uma postura ativa. Não somos fantoches das nossas doenças ou humores.  A neurociências já diz que um dos segredos  da felicidade está na possibilidade de controlarmos nossas emoções negativas.  O que Decker nos deixa de presente é uma prova cabal de que a infelicidade pode ser controlada, enquanto ser feliz é algo que podermos aprender. Genes, portanto, não equivale ao destino. Que o diga seu Decker.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quem Não tem Colírio Usa Óculos Escuros

Homem pegador é narciso. Tudo o que ele quer é alguém para amar a beleza dele. Ele ama ser amado e não propriamente amar. A mulher pegadora também. É impressionante o efeito que a beleza faz em todos nós. A aparência é por si só a credencial para fazer o amor pulsar de dentro de uma mulher insegura.

Eu por, exemplo. Eu adoro os caras bonitos. Mas queria gostar tanto dos feinhos. Os feiosexuais deviam estar com tudo,porque são muito mais confiáveis e é possível dar mais crédito a eles do que aos pegadores contumazes. O pegador nunca vai gostar tanto a ponto de amar unicamente uma pessoa, porque eles amam o impacto que causam no mulherio. Sendo assim, fica difícil para eles manterem o foco em uma só. Porque eles precisam de mais, requerem atenção e estão sempre com predisposição para a novidade, uma nova gatinha, não porque querem amar, mas querem a possibilidade de serem amados: "oba, mais uma que me ama. Eu sou o cara."

Uma amiga minha um dia disse que o pegador se nota pelo papo. Os sérios não se atiram em cima da mulher e não expõem de cara suas intenções e nem que a moçoila mexeu com eles. Eles esperam para tirar o termômetro do efeito que causaram na mulher. Eles têm medo de dar a cara a tapa.

Os pegadores são  os bonitos. Os feios quando são apaixonantes, deixam de ser feios. E a maior virtude deles é serem encantadores e esforçarem-se para fazer o "amor bonito". Por serem considerados "feios", eles embelezam o amor e aí a relação passa a ser agradável aos dois, cheia de dedicação e romantismo. Ame um feio.Deixe de lado essa história de barriga tanquinho, olhos azuis, nariz grego. Use o travesseiro se precisar. Faça como já disse o velho e sábio Raulzito: deixe o colírio de lado, use óculos escuro. E vá no embalo do rock com seu amor-feinho: quem não tem colírio usa óculos escuro. A formiga só trabalha porque não sabe cantar.

O que fazer com caras pegadores? Dica da minha amiga: "seja indiferente, seja superior". Tenha uma atitude pró-você mesma tipo: "Todo mundo me paquera, você, pegador, é só mais um." É tanta coisa no menu que eles não sabem o que fazer. Seja linha dura. Predadores adoram uma disputa e vão te valorizar. Ou não.

Mas os caras sérios se importam realmente com sua indiferença, eles se sentirão inferiores, se abalarão com o fato de você não dar bola a eles, é um baque na auto estima.

Mas por que a gente se atrai pelos pegadores? Porque é bacana entrar na dança dos sedutores, eles são muito mais melosos e enfatizam muito mais tuas características legais do que os caras sérios, então a gente se sente especial, tendo a atenção de um  homem assediado. Temos a mania de idealizar os pegadores porque não dá tempo de vermos os defeitos deles. Eles somem antes. É assim: pegadores ficam na tua vida até perceberem que você foi conquistada, depois desaparecem deixando as vítimas desasadas. Então nesse tempo ele supre a carência de atenção, de ser querida por alguém. Só que expira o tempo deles antes que você descubra se ele era tudo isso que você queria. Há muito mais de confiabilidade e tolerância em um homem não-lindo. Os não-belos se esforçam mais. Isso não é um conselho, é só uma crônica. Leve a sério ou não, se quiser. Só te digo uma coisa, confie no filtro solar. E no Pedro Bial, que já foi um pegador.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Pentelhas inteligentes


Nunca tive instinto materno. Jamais pensei em ter filhos.  Ah, deixem-me ser politicamente incorreta. E insintivamente incorreta. Não sigo a cartilha do espermatozoide vencedor.
 Eu achava que eu era uma pessoa desse modelo econômico. Mas Marianna veio há 12 anos sem planejamento e após eu ter engordado 31 quilos. Sim, eu estava uma leitoa e mãe solteira, não é assim tambem, eu morei com o pai dela no Rio de Janeiro. Bem, pelo menos foi no Rio. As tramas que o destino tece sem que a gente se de conta. Descobri o instinto oculto.

As crianças são lindas e pentelhas. Faz parte do encanto pueril. Quando nascem, é mentira que possuem “cara de joelho”. Sempre fico procurado o joelho nas feições dos bebês e nunca encontro. É verdade que para mim, os bebês são parecidos aos chineses: todos quase iguais. Mas não, joelho não. Joelho não tem cabelo e a maioria dos nenéns que vi ultimamente são bem cabeludos.

Mas o bebê cresce e utiliza a lógica. Eu fico impressionada com a inteligência e o sarcasmo contido em algumas respostas infantis. Penso: “porque não pensei nisso”. Se você quer uma resposta sarcástica, pergunte a um baixinho. Ele te diz ironias na cara sem pestanejar. Você permanece sem reação imaginando que a resposta seja fruto de uma santa inocência. Balela. Criança tem outra por dentro. E todas elas loucas para espetar o tridente. São extremamente voluntariosas, até as mais mansinhas. Só dá entrevista para quem acha “vai com a cara”. Só pode. Não é possível tanta indiferença comigo. Estou tendo uma espécie de rejeição infantil.

Aconteceu primeiro no plantio de árvores em Arroio do Meio. Ele tinha nove anos e estava com enxada na mão, todo disposto a colaborar com o Meio Ambiente. Eu cheguei com microfone:

- Aha, um garoto gremista. O que tu ta achando de plantar mudinhas?

- Sim, eu sou gremista.

- Mas me conta, porque tu estás plantando mudinhas?

- Não sei.

Insisti mais um tempo. Como não se tira leite de pedra, desisti:

- Está certo. Vai plantar então!

O segundo encontro com criança-entrevistada ocorreu meia-hora depois, na Expowink, interior de Estrela. O colega Rodrigo Nascimento foi junto e encontrou um garoto super fofo, de 8 anos que deu a ele respostas ótimas. Cheguei quando o menino dizia: “nesta idade a gente ama os animais.”

Achei a resposta fantástica. Gritei ao cinegrafista:

- Neto, vem até aqui. Agora sim, achamos um garoto que fala.

Virei-me para o garoto, ajeitei o microfone e disse: Diga exatamente o que tu falou agora.

Ele:

- “Me esqueci”

Eu: mas eu vou te lembrar: “nesta idade a gente ama os animais”. Diga isso.

Ele

“Te falei que me esqueci”.

Rodrigo veio para ajudar. Diga o que tu disse para mim:

-“Me esqueci”

A mãe, interferiu:

- Diga: “nesta idade a gente gosta dos animais”

“Me esqueci”

O garoto só podia estar zoando com a minha “canopla”. Crianças! Um jeito particular de dizer a verdade. Se o mundo fosse assim, aprenderíamos com a transparência. Mas aí nem os adultos me dariam entrevistas.

Sou aprendiz de lições infantis.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Eu mato a Sara

Saraiva, que raiva. Como algo que a gente quer tanto pode nos irritar a ponto de a gente não desistir, mas insistir como uma sanguessuga virtual no meio de um mar de propostas, todas loucas para pegar sua prestaçãozinha. Mas você quer essa.


Pela décima vez, fiz o cadastro na Saraiva. Tem iPhone, tablet, notebook, mesa de notebook, ah meu pai, tanto gozo virtual que eu sonho comprar...É tão bom "ser", se espiritualizar lendo os textos do Dalai Lama num tablet. é tão bom curtir uma meditação no seu computador acelerado. É tãooooooooo bom estreitar os laços com sua filha ligando para ela do iPHone. Resolvi que teria, teria, teria: 500 prestações, com a hora extra a 14 reais, bom, seria meio puxado, mas seria o meu sonho.
Saraiva, aí vou eu. Duas vezes fiz o cadastro, duas vezes recusado. Fui então ao atendimento on-line: beleza, falar com loja diamante, gente de metrópole, acostumados a resolver nosso problema num minuto. E que bom que é 0800, assim não pago. Beleza. Show de bola. Esse mundo virtual é do caralho.
Vamos la: 0800 754 400
Ouvi uma voz suave, super simpática...eu ia dar oi para ela e relatar meu problema, mas ela foi mais rápida que eu:
"OLá seja bem vindo a nossa central de atendimento. Para falar com o atendimento Saraiva, digite 1.

1

Eu ia dizer novamente boa noite, mas a voz surge:
"Boa noite, eu sou a Sara, atendente virtual da Saraiva. Eu posso te pedir um favor? Se você ja fez sua compra me passe o numero do seu CPF, que eu vou AGILIZANDO seu pedido, ok?

01264*******

Agora é a Sara real: "Oi por favor, eu quer.."

"Pois se você quiser saber sobre troca ou devolução,digite 2, cartões Saravia 3, Cupom Desconto, 5, 6 para tele-vendas e se quiser falar com um de nossos atendentes digite 7

Eu quero os cartões, pq eu quero, quero, quero um. Então vamos la 3

Sara abre o bocão virtual como monólogo de barítono

"Agora vamos as informações que você precisa: se você  quer crédito, digite 1, se você quer devolver o produto, digite 2

1 pelo amor de Deus

Para acessar o cartão, entre em nosso site e na parte superior acesse o link....

Sara me mata, ela de novo, toda solícita:

"Você conseguiu entender toda informação? Não... então tecle 1 para ouvi-la novamente ou encerre o atendimento na opção 4..

Eu espero, porque espero que uma vivalma venha me atender ao fone, estou desesperada, quero meu cartão, alguem vai vir, tenho certeza.

Mas Sara me tira do devaneio
_ uhum, essa não é uma opção válida. Por favor, tecle um para repetir.

Tentei o atendimento on -line. Tinha 14 na minha frente. Esperei. Relatei meu problema. A Atendente disse que era para eu ligar no 0800, ou seja, falar com a Sara.

Duas horas depois, consegui falar com uma atendente que me disse:
- Senhora, não tenho a informação que a senhoa necessita, mas posso lhe dar o numero do 0800.

Eu fiquei enfezada, foi minha vez de me vingar:
- Senhora atendente, se a senhora não se importa, eu queria dizer: se a senhora tiver uma outra opção alem do 0800, tecle 1, se a senhora tiver alguma solução virtual que nao seja o atendimento, digite 2 e se a senhoa não souber mesmo nada, digite 3

- "São essas duas opção que tenho senhora", ela me disse com voz imperturbavel.

Mais duas horas depois, consigo um numero do Banco do Brasil que administra os cartões de crédito da Saraiva.

- Senhor Luciano, vc pode me ajudar? Meu problema é tal.
- Senhora Andreia, a senhora ligou para o bloqueio de cartões creio que senhora teria de acessar o 0800 ou então tentar fazer o cadastro novamente.

Eu puta da cara:
- Senhor Luciano, eu vou tentar, ja tentei quatro vezes, mas eu vou ser tal qual Santos Dumont, vou tentar 14, quem sabe eu consigo no 14 bis

A voz
- Não entendi, senhora?

Eu
-Eu vou dar uma de Santos Dumont, vou fazer 14 vezes, ta....

tum tum tum tum

E depois dizem que Jó foi o homem mais paciente do mundo. Eles não conheciam o atendimento virtual!É preciso uma Saraivada de paciência. Né, Sara!Se concordar, digite 1, se discordar, 2 e se você está indeciso, vá tomar banho de sol na laje.